segunda-feira, 15 de abril de 2019

Piano

à(s) segunda-feira, abril 15, 2019

Ela tocou uma balada no seu velho piano, 
sentia que não possuía nada mais.
Tocava como quem se despede de alguém
tocava como quem não tem amor.
Há muito que o tempo lhe tirara o tempo
e o amor lhe roubara o amor
e ela sentia que nada mais tinha para perder nesta vida.
O piano era a sua companhia,
o seu refúgio para as horas menos boas
quando nas casas vizinhas se ouvia o riso das crianças,
se sentia o aroma de uma refeição em família
e o calor dos abraços.
E ela ali. E o seu piano ali com ela.
Tocava sem parar até lhe doerem as mãos
como que para se castigar por estar só.
Todos ouviam a sua música
e sabiam que nesse momento ela sofria,
provavelmente até chorava,
costumava chorar enquanto tocava
porque nesse instante que durava muitos instantes
ela sofria e descarregava nas teclas a sua dor de mulher.
E quando parava,
quando parava tudo parava com ela:
os sons, os cheiros,
apenas as lágrimas corriam apressadas.
Demorava a limpá-las todas,
eram demasiadas.
E adormecia exausta por tanta tristeza.
E no dia seguinte voltava à música,
voltava a tudo o que a entristecia 
como se fosse um vício:
o mesmo piano,
a mesma balada,
outras lágrimas.

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Pensamentos de uma vida, por Ana Rita Ramos Copyright © 2010 Design by Ipietoon Blogger Template Graphic from Enakei