Ela tocou uma balada no seu velho piano,
sentia que não possuía nada mais.
Tocava como quem se despede de alguém
tocava como quem não tem amor.
Há muito que o tempo lhe tirara o tempo
e o amor lhe roubara o amor
e ela sentia que nada mais tinha para perder nesta vida.
O piano era a sua companhia,
o seu refúgio para as horas menos boas
quando nas casas vizinhas se ouvia o riso das crianças,
se sentia o aroma de uma refeição em família
e o calor dos abraços.
E ela ali. E o seu piano ali com ela.
Tocava sem parar até lhe doerem as mãos
como que para se castigar por estar só.
Todos ouviam a sua música
e sabiam que nesse momento ela sofria,
provavelmente até chorava,
costumava chorar enquanto tocava
porque nesse instante que durava muitos instantes
ela sofria e descarregava nas teclas a sua dor de mulher.
E quando parava,
quando parava tudo parava com ela:
os sons, os cheiros,
apenas as lágrimas corriam apressadas.
Demorava a limpá-las todas,
eram demasiadas.
E adormecia exausta por tanta tristeza.
E no dia seguinte voltava à música,
voltava a tudo o que a entristecia
como se fosse um vício:
o mesmo piano,
a mesma balada,
outras lágrimas.
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