Não sei se alguma vez alguém lerá estas palavras, de qualquer modo apetece-me contá-las, preciso de o fazer para me libertar da angústia que me persegue neste momento. Amanhã talvez o dia seja diferente, um pouco melhor, o dia seguinte costuma ser mais fácil e suportável que o anterior, já que as feridas costumam sarar com o tempo, mesmo as que nos magoam por dentro e por fora e nos percorrem o corpo como um choque.
Assim sou eu enquanto escrevo o início desta minha narrativa: uma espécie de animal ferido que procura consolo. Quando terminar e o último ponto final for colocado é possível que esteja refeita desta queda que não me deixará no chão, se nunca lá fiquei é porque não é esse o meu lugar!
Percebi ao longo da vida que as pessoas não são todas iguais, umas são boas, genuinamente boas; outras, pelo contrário, emanam energia negativa, são verdadeiramente más, embora eu ache que mesmo no pior dos seres se pode encontrar alguma qualidade. Tal como as pessoas feias que algo de bonito poderão ter, mesmo que sejam apenas as pestanas ou as orelhas!
Quando olhamos para alguém não conhecemos o seu interior e, por essa razão, iludimo-nos várias vezes, sofremos, entramos num fosso labiríntico cuja saída é quase impossível de encontrar.
Muitas mulheres percorrem o mesmo caminho, umas encontram um homem que as faça felizes, outras não.
Quando apostamos numa relação não há certezas se aquela será a tal ou apenas mais uma desilusão. Depois vêm as lágrimas; as conversas com as amigas que ouvem atentamente o nosso pranto e nos aconselham a seguir em frente; uma cerveja e um cigarro numa saída de sábado à noite; uma barra de chocolate ou uma embalagem de gelado num serão solitário algures entre um programa deprimente de televisão e um sofá que parece grande demais para uma pessoa apenas. Além de um maço de lenços de papel, claro!
Conheci-o como tantas mulheres conhecem tantos homens num dia que nada fazia prever que algo diferente podia marcar para sempre a minha vida e, à semelhança de muitas delas, não gostei dele no início. Vi-o como um homem convencido, embora charmoso, apesar dos quilos a mais!
A primeira vez que nos cruzámos foi na aula de yoga. Por obra do destino, das circunstâncias ou por nada disto, apenas porque assim calhou, ficámos ao lado um do outro.
O seu excesso de confiança numa das posturas fez-me achá-lo irritante! Afirmou, a certa altura, que era muito competitivo. Eu só pensei: man, isto não é uma competição, cada um aqui faz o que consegue centrado em si próprio apenas!
Nunca me identifiquei com pessoas que se acham superiores, seja por que motivo for. Ele tinha um certo ar de quem gosta de comandar o navio e dar instruções! Contudo, sorria e essa sim era e é uma caraterística que eu aprecio nos seres humanos: o humor, a capacidade de sorrir. Ele era simpático, não apenas por rir, mas também por falar com todas as pessoas. Aparentava um ar feliz, embora na sua felicidade houvesse uma lasca de algo que só muito mais tarde eu entendera.
Naquela altura ele era interessante, risonho e convencido! Nada mais que isto!
Tenho 36 anos e sou solteira. Sim, solteira! Hoje em dia as mulheres e os homens casam tarde, uns porque não têm dinheiro, outros porque se dedicam à carreira e deixam os planos pessoais para depois, para um dia.
Contudo, a mentalidade das pessoas faz toda a diferença!
Quando tenho que preencher documentos em certas instituições ou repartições (tanto faz!) e vejo uma pergunta sobre o estado civil fico agoniada! Que interesse haverá em saberem tal detalhe? Até entendo se falarmos nas Finanças pelas questões do IRS! Parece que são feitas para irritar uma mulher solteira! Por vezes, se essa indagação é feita olhos nos olhos até se nota a dilatação das pupilas de tanto espanto e emoção! É quase como se estivesse a dizer que tenho um braço a mais ou que no meio da testa me nasceu o nariz!
Estamos a falar do estado civil, só isso!
Chamo-me Bárbara, tenho 36 anos e sou solteira porque só me aparecem cabrões à frente e nenhum deles resolveu ficar comigo!
Esta é a minha mais dolorosa confissão! Neste momento careço de definição religiosa, identifico-me com alguns aspetos de diferentes Deuses.
Tal como tudo na vida não ter marido tem prós e contras. Vejamos por partes: imaginemos uma grelha, pode ser em Excel ou simplesmente num bloco de notas, de um lado escrevemos aquilo que consideramos válido em coabitar com um ser desta espécie e do outro o que achamos ser uma total perda de tempo. Qual será o lado mais preenchido? Nem me atrevo a adivinhar!
Gostaria de explicar ao mundo que nascer mulher não será necessariamente estudar, casar, ter filhos e cuidar da casa; sair do trabalho e dedicar-se às tarefas domésticas para agradar ao marido, que trabalha o mesmo número de horas da esposa, contudo não tem energia suficiente para contribuir para a higiene do lar ou o alimento do estômago!
Que saiba o Universo que podemos ser felizes por viajar com amigas ou simplesmente comer cereais ao jantar; vestir um pijama nada sexy com meias por cima das calças e dormir profundamente de boca aberta dando roncos femininos que nos conferem o ar de verdadeiras guerreiras do século XXI!
Mas obviamente, faz falta sentir o conforto de um abraço masculino, o calor dos braços fortes (quando são fortes!) e ter companhia para ver um filme no sofá comendo pipocas salgadas ou ir jantar a um restaurante da moda, beber uma sangria de espumante e depois ir para casa dormir em conchinha!
Cheguei à aula de yoga naquele dia como habitualmente: descalcei-me, pendurei o saco no cabide, apanhei o cabelo, dirigi-me para a sala e desenrolei o meu tapete lilás. Olhei ao meu redor e tentei analisar a energia das pessoas, tentei senti-la em mim e nessa minha busca olhei-o e achei-o engraçado! Bonitinho até!
O espaço é muito amplo, digamos que um quadrado de luz e paredes brancas com pequenos motivos relativos às posturas e à respiração; num dos cantos estão os tapetes de alguns colegas dentro de um grande cesto vertical ao lado das prateleiras de onde retiramos as mantas e as almofadas. As janelas da sala são rasgadas em toda a toda a altura com vista para o rio e umas pequenas varandas verdes. Ao fundo existe um espelho para o qual devemos olhar para corrigirmos as costas ou o movimento dos braços; na esquina deste começa o suporte onde estão assentes as bolas de Pilates, modalidade muito em voga e que pratico numa ou noutra ocasião.
Comecei a praticar yoga numa tentativa de ter uma atividade diferente que me ajudasse a controlar a impulsividade e já lá vão bastantes anos! Não sou propriamente uma pessoa flexível, mas como me esforço muito vou fazendo progressos ao longo dos anos. Lembro-me de tentar fazer o arado, isto é, estar deitada de costas com as pernas para trás e os dedos a tocar no chão. Senti-me uma verdadeira tartaruga de patas para o ar! O verdadeiro ninja incontrolável! Agora posso garantir orgulhosamente que domino qualquer tipo de arado que me proponham, seja com pernas abertas ou fechadas e mãos no chão ou a agarrar os pés! Determinação meus amigos! O mesmo aconteceu com o pino de cabeça! Não sendo o às da elasticidade foi-me possível a proeza de colocar as mãos e antebraços no solo, levantar o resto do corpo até o rabo quase tocar no céu e tentar aproximar-me das mãos até que é necessário dar aquele impulso firme e tocar na parede ficando na vertical. As primeiras experiências neste campo foram literalmente aterradoras, pois o corpo balançava entre a parede e o chão num ritmo frenético que nem eu sabia que tinha! Mas fazer o pino? Não! Contudo, a tal vontade de conseguir era maior do que a de desistir e hoje sou também uma fera em matéria de levantamento da zona pélvica e afins!
Nesse fim de tarde conversei com algumas pessoas e ele veio ter comigo para falar sobre assuntos banais. Eu reparei que cada vez que o olhava nos olhos me ria perdidamente. Ele tinha um efeito em mim que eu não entendia! Seria atração ou o início de uma amizade?
Fui para casa tomar banho e jantar e pensei nele, achando um completo disparate, sorri e desejei que ele também fosse na aula seguinte.
Entretanto a vida voltou ao seu ritmo e estas coisas das borboletas e outros animais percorrendo o corpo todo foi sendo deixada de lado porque as responsabilidades assim o exigiam e mulher que é mulher não se nega a tratar de nada! Dá-lhe com ganas de trapezista no Cirque du Soleil!
De vez em quando lembrava-me daquele sorriso, da forma como pousava um lábio no outro, como mostrava um pouco dos dentes brancos e das rugas que se notavam no canto dos olhos quando se franzia. Achava-o um misto de homem e de criança e esta mistura tinha uma certa piada mística que se tornava perigosamente envolvente.
Ele tinha uma relação terminada com uma mulher com quem partilhava a casa. Eu sabia, sabia também que jogava um jogo que poderia ter consequências devastadoras. Mas gosto de desafios, de adrenalina, de desportos radicais, de sentir o precipício debaixo dos pés e saber que um passo em falso pode ser fatal, de arriscar a vida num risco mínimo e aparentemente controlado. Não me considero inconsciente, antes aventureira!
O Bernardo convidou-me para sair e beber uma garrafa de vinho num bar que ele adorava. Depois dessa saímos várias vezes, caminhámos pela praia, bebemos gin (a bebida preferida dele) e começou a frequentar a minha casa.
Passado algum tempo o seu romantismo e atenção transformaram-se em obsessão e todos os passos que eu dava eram controlados ao pormenor, bem como as pessoas com quem me relacionava, para quem olhava e onde estava. Foram meses de angústia em que a sua manipulação era maior que a minha afirmação enquanto mulher e ser humano. Implorei que me deixasse em paz, porém, cada palavra feria-o e tornava-o mais irritado e difícil de controlar. E eu sufocava! E quase enlouquecia! Se continuava a gostar dele? Talvez, mas com uma força muito menor que roçava a saturação. Contudo, nunca o deixei!
Um dia uma amiga ligou-me e perguntou se eu sabia o que tinha acontecido. Não! Não sabia! O Bernardo morreu, contou ela, houve um acidente de mota e ele não resistiu ao embate. O meu corpo nesse instante foi percorrido por um arrepio que me corroeu as entranhas. Chorei.
Despedi-me dele à minha maneira: colhi uma flor num jardim e atirei-a ao mar, foi o funeral que lhe proporcionei. Vi a flor ser levada pela maré, perdi-a de vista pouco depois e murmurei ao vento: adeus Bernardo, até que a vida nos una novamente!
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