Ele chegou,
todos se curvaram.
Era senhor importante. Era rico.
Passou por eles sem os olhar nos olhos.
Já o seu pai o havia ensinado a ser assim.
Dizia que o povo se baixava,
que os poderosos podiam tudo
e compravam tudo e todos.
Uma criança olhou-o,
confrontou-o inocentemente
e sorriu-lhe.
Achou uma afronta o que aquele ser lhe fez!
Ele é que sabia,
era ele que tinha o dinheiro!
Olhou-a com desprezo,
não, não lhe sorriu,
não lhe tocou.
Era só uma criança
mas ele não quis saber.
Era pobre, nada valia.
Algum tempo passou,
aquele rapazinho não teve tempo para brincar,
o trabalho exigia o seu esforço
e a sua infância.
Mas um dia,
naquele dia…
…naquele dia o carro passou,
passou depressa,
passou sem olhar,
sem ver.
O senhor arrogante andava ali a pé
àquela hora.
O carro passou e levou tudo à frente,
o menino não viu o carro,
o carro não viu o menino.
O barulho ensurdecedor daquele corpinho a bater na chapa
fez o senhor importante olhar.
Pela primeira vez olhou alguém nos olhos.
Fê-lo uma única vez que o marcou para sempre.
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