Ele era um menino pequeno, não de altura, mas de idade e o seu maior sonho era apanhar o vento para o guardar numa caixinha.
Queria mostrá-lo a todas as pessoas que não o podiam sentir, especialmente a uma!
Sempre que soprava forte o Yuri, assim se chamava a criança, corria para o cimo da montanha e gritava: Anda que é hoje que eu te apanho, não tenhas medo, não te quero fazer mal. Tu és tão imenso que só te tiro um bocadinho e ainda te sobra muito sopro! CHEGA AQUI! APROXIMA-TE DE MIM VENTANIA!
Porém, o vento não se deixava apanhar e parecia sorrir lá do alto como se gozasse com a tristeza e a frustração que causava. No fundo, em certos momentos até sentia uma certa pena do Yuri, mas a sua teimosia e o desmedido orgulho não deixavam que se entregasse. Não até ele próprio o querer fazer! E não estava nesse registo, decididamente! Na realidade, deixar um pouco de si não lhe faria diferença, pois estava em constante renovação! Digamos que era uma questão de honra e feitio! Queria marcar a sua posição e não vacilaria tão facilmente. Também, não compreendia aquela paranoia de o quererem armazenar e fechar quando na sua essência era a de um espírito livre, um hippie! Vagueava por onde queria solitário como sempre fora, soprando em tudo e todos para se fazer notado, para que percebessem que tinha chegado e que só abalaria quando lhe apetecesse porque nele ninguém mandava, ninguém!
Como sempre acontecia, o miúdo chegava a casa desolado sem perceber a razão de mais um fracasso, corria pelas escadas de madeira e atirava-se para cima da cama. Sentia-se triste, como que abandonado. Sentia que cada vez que falhava era menos uma oportunidade de lho mostrar, de ela o poder sentir na pele. Pudesse ele levar-lhe um raio de sol para lhe aquecer o coração e nem vacilaria por um segundo!
Vivia sozinho com a mãe, o pai partira há muito e tinha-os deixado no aconchego do lar sem a sua presença. Possuía agora outra família e deles pouco devia recordar tendo em conta o escasso número de vezes que telefonava. Ambos sentiam muito a falta dele, contudo habituaram-se a ser dois em vez de três e com o tempo a rotina reinstalou-se e tudo parecia ter sido sempre assim. As escolhas têm consequências, a ausência delas também!
O gaiato foi crescendo sem nunca abandonar a sua ideia. Era uma missão que o acompanhava há alguns anos e não pretendia desistir facilmente. Os amigos e os colegas da escola gozavam-no quando o viam e ouviam gritar para o ar como se estivesse maluquinho! Ele não se importava, já que tinha a fama não havia mal algum em fazer jus a ela. Até se assemelhava a uma terapia soltar aqueles berros que lhe vinham de dentro do peito, de dentro da alma ferida.
Nunca lhe perguntaram a razão daquela fantasia e ele nunca se preocupou em explicá-la, era muito sua e não queria partilhá-la, apenas a mãe sabia e sempre o encorajara a perseguir os sonhos e a lutar pelos objetivos, nunca o dissuadiu, nunca o criticou.
Desde que a vira que tinha uma paixão pela mesma menina, foi amor à primeira vista! Ela tinha-se mudado há pouco de outra cidade não tão bonita como aquela, que tinha uma montanha, uma praia extensa e um passeio amplo onde eles se encontrariam para andar de bicicleta e brincar. Este lugar parecia encantado, todas as portas das casas tinham formas arredondadas e por cima vitrais coloridos que deixavam passar a luz, fazendo um efeito lindo. A maioria das habitações tinha lareiras e chaminés grandes por onde saía o fumo e o cheiro a lenha queimada. Se lhe vendassem os olhos e o levassem a viajar por muitos lugares distintos ele saberia quando chegasse ali porque nenhum espaço no mundo conseguia cheirar assim! As pessoas, na sua maioria, eram afáveis e risonhas, tirando uma ou outra mais sisuda a quem gostavam de pregar partidas como tocarem às campainhas e esconderem-se de seguida ou trocarem os vasos de plantas entre os vizinhos. Na manhã seguinte todos pareciam ter jardins ambulantes, cada um carregava os recipientes que não lhe pertenciam e procurava os verdadeiros donos! Eles escondiam-se atrás de uma árvore ou de um arbusto a espreitar e a dar gargalhadas!
Até que um dia ela não apareceu no sítio combinado à hora combinada para a brincadeira combinada: ia aprender a andar de skate. Ele esperou, esperou e decidiu ir a casa dela. Tocou à campainha, mas ninguém abriu. Sentou-se nos degraus e aguardou que regressassem. Passadas umas horas o carro chegou, lá dentro vinha a sua amada e os pais. Ele percebeu que algo de mau acontecera porque não a viu sorrir, pareceu-lhe até que a vira chorar.
- Entra Yuri, vou preparar um lanche para todos. A tua amiga precisa de miminhos – disse a mãe.
Ela passou por ele a correr e fechou-se no quarto.
- O que aconteceu?
- Fomos ao médico e a Jéssica está doente, muito doente, vamos ter que lhe dar atenção e apoio.
Lancharam todos, embora o ambiente fosse pesado e triste.
Durante os meses que se seguiram ele visitava-a todos os dias, ela não ia à escola. Estava fragilizada, pálida, sem cabelo.
- A Jéssica tem cancro – lembrava-se das palavras da mãe dela como se fossem navalhas a picar-lhe cada pedacinho da pele do seu corpo.
Ele tentava animá-la, mas todos os esforços eram inglórios. Oferecera-lhe uns lenços coloridos para a cabeça, levara o skate para a ensinar a andar naquele mundo que era o quarto onde ela habitava praticamente durante todo o dia, comprara-lhe livros para lerem juntos.
Visitava-a todos os dias depois das aulas, mostrava-lhe a matéria e estendia-lhe uma quantidade de fotocópias que tinha tirado dos seus apontamentos para que ela estivesse a par de tudo quando se curasse e regressasse.
Um dia perguntou do que ela sentia mais falta.
- Do vento a despentear-me os cabelos que agora não tenho.
E fez disso a sua razão de existir: apanhar vento e libertá-lo só para ela!
Passou cerca de um ano e alguns meses.
Numa tarde de ventania em que todos se queriam abrigar por causa da ameaça de chuva ele pegou numa caixinha de madeira trabalhada, subiu a montanha a muito custo porque o vento exercia uma força inimaginável e gritou desesperado a sua história.
Desta vez, o vento comoveu-se com aquele amor e aquele sofrimento e entrou, acomodando-se ao espaço. Afinal, o rapaz tinha razão, não era aquele bocadinho que o ia fazer deixar de ser quem era!
O Yuri olhou-o nos olhos e sorriu, agradeceu-lhe e fechou a caixa com força não fosse ele mudar de ideias. Correu montanha abaixo, pegou na bicicleta e pedalou com toda a força que ainda tinha até à casa dela.
A mãe sorriu ao vê-lo, mas aquele rir foi diferente de todos os outros.
- Ela piorou, os tratamentos não estão a surtir efeito.
Ele correu pelas escadas como se daquele gesto dependesse toda uma vida de quem se ama. Abriu a porta do quarto e viu-a mais descorada que nunca, mais incapaz de se mexer e parou por instantes a olhá-la nos olhos. Continuava linda, quando fossem grandes queriam casar e ter uma casa com um jardim onde pudessem sentar-se quando fossem velhinhos para apanharem o fresco dos serões de verão! Recordava os planos e os sonhos que partilharam inúmeras vezes e parecia que tudo tinha parado e ele regressara a esses momentos em que se amaram com a inocência de crianças que namoram dando as mãos e correndo para o rio!
Voltou a si, voltou ao quarto, voltou à imagem da menina doce recostada na cama, voltou a vê-la doente com a cabeça coberta por um dos lenços que lhe oferecera. Sorriu e disse que tinha conseguido finalmente agarrá-lo, ela sorriu também e chamou-lhe maluco! Ele colocou-se no meio do quarto e abriu a caixa, de lá saiu uma brisa agradável que a fez arregalar os olhos e perceber que era real, estendeu a mão e o vento brincou com os seus dedos. Como que por magia o lenço voou e o cabelo apareceu bonito como sempre fora, a cor voltou às suas bochechas e a energia parecia nunca ter abandonado o seu corpo de menina.
Estava curada! Estava feliz e quando saiu do quarto os pais nem queriam acreditar no que observavam!
O vento quis redimir-se e levou a doença dela para longe de todos os seres para que nunca mais nenhum sofresse com ela.
Eles cresceram, amando-se sempre mais a cada dia, casaram e construíram uma casa grande com o jardim dos seus sonhos onde viriam a morrer muito velhinhos de mão dada.
Queria mostrá-lo a todas as pessoas que não o podiam sentir, especialmente a uma!
Sempre que soprava forte o Yuri, assim se chamava a criança, corria para o cimo da montanha e gritava: Anda que é hoje que eu te apanho, não tenhas medo, não te quero fazer mal. Tu és tão imenso que só te tiro um bocadinho e ainda te sobra muito sopro! CHEGA AQUI! APROXIMA-TE DE MIM VENTANIA!
Porém, o vento não se deixava apanhar e parecia sorrir lá do alto como se gozasse com a tristeza e a frustração que causava. No fundo, em certos momentos até sentia uma certa pena do Yuri, mas a sua teimosia e o desmedido orgulho não deixavam que se entregasse. Não até ele próprio o querer fazer! E não estava nesse registo, decididamente! Na realidade, deixar um pouco de si não lhe faria diferença, pois estava em constante renovação! Digamos que era uma questão de honra e feitio! Queria marcar a sua posição e não vacilaria tão facilmente. Também, não compreendia aquela paranoia de o quererem armazenar e fechar quando na sua essência era a de um espírito livre, um hippie! Vagueava por onde queria solitário como sempre fora, soprando em tudo e todos para se fazer notado, para que percebessem que tinha chegado e que só abalaria quando lhe apetecesse porque nele ninguém mandava, ninguém!
Como sempre acontecia, o miúdo chegava a casa desolado sem perceber a razão de mais um fracasso, corria pelas escadas de madeira e atirava-se para cima da cama. Sentia-se triste, como que abandonado. Sentia que cada vez que falhava era menos uma oportunidade de lho mostrar, de ela o poder sentir na pele. Pudesse ele levar-lhe um raio de sol para lhe aquecer o coração e nem vacilaria por um segundo!
Vivia sozinho com a mãe, o pai partira há muito e tinha-os deixado no aconchego do lar sem a sua presença. Possuía agora outra família e deles pouco devia recordar tendo em conta o escasso número de vezes que telefonava. Ambos sentiam muito a falta dele, contudo habituaram-se a ser dois em vez de três e com o tempo a rotina reinstalou-se e tudo parecia ter sido sempre assim. As escolhas têm consequências, a ausência delas também!
O gaiato foi crescendo sem nunca abandonar a sua ideia. Era uma missão que o acompanhava há alguns anos e não pretendia desistir facilmente. Os amigos e os colegas da escola gozavam-no quando o viam e ouviam gritar para o ar como se estivesse maluquinho! Ele não se importava, já que tinha a fama não havia mal algum em fazer jus a ela. Até se assemelhava a uma terapia soltar aqueles berros que lhe vinham de dentro do peito, de dentro da alma ferida.
Nunca lhe perguntaram a razão daquela fantasia e ele nunca se preocupou em explicá-la, era muito sua e não queria partilhá-la, apenas a mãe sabia e sempre o encorajara a perseguir os sonhos e a lutar pelos objetivos, nunca o dissuadiu, nunca o criticou.
Desde que a vira que tinha uma paixão pela mesma menina, foi amor à primeira vista! Ela tinha-se mudado há pouco de outra cidade não tão bonita como aquela, que tinha uma montanha, uma praia extensa e um passeio amplo onde eles se encontrariam para andar de bicicleta e brincar. Este lugar parecia encantado, todas as portas das casas tinham formas arredondadas e por cima vitrais coloridos que deixavam passar a luz, fazendo um efeito lindo. A maioria das habitações tinha lareiras e chaminés grandes por onde saía o fumo e o cheiro a lenha queimada. Se lhe vendassem os olhos e o levassem a viajar por muitos lugares distintos ele saberia quando chegasse ali porque nenhum espaço no mundo conseguia cheirar assim! As pessoas, na sua maioria, eram afáveis e risonhas, tirando uma ou outra mais sisuda a quem gostavam de pregar partidas como tocarem às campainhas e esconderem-se de seguida ou trocarem os vasos de plantas entre os vizinhos. Na manhã seguinte todos pareciam ter jardins ambulantes, cada um carregava os recipientes que não lhe pertenciam e procurava os verdadeiros donos! Eles escondiam-se atrás de uma árvore ou de um arbusto a espreitar e a dar gargalhadas!
Até que um dia ela não apareceu no sítio combinado à hora combinada para a brincadeira combinada: ia aprender a andar de skate. Ele esperou, esperou e decidiu ir a casa dela. Tocou à campainha, mas ninguém abriu. Sentou-se nos degraus e aguardou que regressassem. Passadas umas horas o carro chegou, lá dentro vinha a sua amada e os pais. Ele percebeu que algo de mau acontecera porque não a viu sorrir, pareceu-lhe até que a vira chorar.
- Entra Yuri, vou preparar um lanche para todos. A tua amiga precisa de miminhos – disse a mãe.
Ela passou por ele a correr e fechou-se no quarto.
- O que aconteceu?
- Fomos ao médico e a Jéssica está doente, muito doente, vamos ter que lhe dar atenção e apoio.
Lancharam todos, embora o ambiente fosse pesado e triste.
Durante os meses que se seguiram ele visitava-a todos os dias, ela não ia à escola. Estava fragilizada, pálida, sem cabelo.
- A Jéssica tem cancro – lembrava-se das palavras da mãe dela como se fossem navalhas a picar-lhe cada pedacinho da pele do seu corpo.
Ele tentava animá-la, mas todos os esforços eram inglórios. Oferecera-lhe uns lenços coloridos para a cabeça, levara o skate para a ensinar a andar naquele mundo que era o quarto onde ela habitava praticamente durante todo o dia, comprara-lhe livros para lerem juntos.
Visitava-a todos os dias depois das aulas, mostrava-lhe a matéria e estendia-lhe uma quantidade de fotocópias que tinha tirado dos seus apontamentos para que ela estivesse a par de tudo quando se curasse e regressasse.
Um dia perguntou do que ela sentia mais falta.
- Do vento a despentear-me os cabelos que agora não tenho.
E fez disso a sua razão de existir: apanhar vento e libertá-lo só para ela!
Passou cerca de um ano e alguns meses.
Numa tarde de ventania em que todos se queriam abrigar por causa da ameaça de chuva ele pegou numa caixinha de madeira trabalhada, subiu a montanha a muito custo porque o vento exercia uma força inimaginável e gritou desesperado a sua história.
Desta vez, o vento comoveu-se com aquele amor e aquele sofrimento e entrou, acomodando-se ao espaço. Afinal, o rapaz tinha razão, não era aquele bocadinho que o ia fazer deixar de ser quem era!
O Yuri olhou-o nos olhos e sorriu, agradeceu-lhe e fechou a caixa com força não fosse ele mudar de ideias. Correu montanha abaixo, pegou na bicicleta e pedalou com toda a força que ainda tinha até à casa dela.
A mãe sorriu ao vê-lo, mas aquele rir foi diferente de todos os outros.
- Ela piorou, os tratamentos não estão a surtir efeito.
Ele correu pelas escadas como se daquele gesto dependesse toda uma vida de quem se ama. Abriu a porta do quarto e viu-a mais descorada que nunca, mais incapaz de se mexer e parou por instantes a olhá-la nos olhos. Continuava linda, quando fossem grandes queriam casar e ter uma casa com um jardim onde pudessem sentar-se quando fossem velhinhos para apanharem o fresco dos serões de verão! Recordava os planos e os sonhos que partilharam inúmeras vezes e parecia que tudo tinha parado e ele regressara a esses momentos em que se amaram com a inocência de crianças que namoram dando as mãos e correndo para o rio!
Voltou a si, voltou ao quarto, voltou à imagem da menina doce recostada na cama, voltou a vê-la doente com a cabeça coberta por um dos lenços que lhe oferecera. Sorriu e disse que tinha conseguido finalmente agarrá-lo, ela sorriu também e chamou-lhe maluco! Ele colocou-se no meio do quarto e abriu a caixa, de lá saiu uma brisa agradável que a fez arregalar os olhos e perceber que era real, estendeu a mão e o vento brincou com os seus dedos. Como que por magia o lenço voou e o cabelo apareceu bonito como sempre fora, a cor voltou às suas bochechas e a energia parecia nunca ter abandonado o seu corpo de menina.
Estava curada! Estava feliz e quando saiu do quarto os pais nem queriam acreditar no que observavam!
O vento quis redimir-se e levou a doença dela para longe de todos os seres para que nunca mais nenhum sofresse com ela.
Eles cresceram, amando-se sempre mais a cada dia, casaram e construíram uma casa grande com o jardim dos seus sonhos onde viriam a morrer muito velhinhos de mão dada.
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