segunda-feira, 25 de fevereiro de 2019

Ei-los que partem

à(s) segunda-feira, fevereiro 25, 2019

Vão saindo daqui a ritmos diferentes, uns avisam, outros nem por isso. Não levam bagagem com eles, devem pensar que para o próximo destino não necessitam de nada ou então que compram tudo lá! Talvez seja mais barato, não sei! Deixam malas, pertences, sentimentos, mas… sobretudo fica a saudade. Não me lembro realmente do que sinto mais falta: se do som da voz; do abraço; de um telefonema ou simplesmente do olhar. Mas sei que falta algo, alguém… No seu lugar fica um vazio que não se preenche, um espaço branco ou negro ou sei lá de que cor!
Recordo o Pedro; o Zé Miguel; o Luís; o Paco; o Jaime; o Nuno; o Carlos; o Yuri; o Manuel; a Berta; a Mimi; a Maria Joana; a Alice; a Maria; a Carolina e tantos que ficaria para aqui a citá-los um a um como quem conta carneiros para adormecer! Não, não o vou fazer! Apenas quis enumerá-los para eu própria saber que cá estiveram, que falei com eles e com elas e que não são apenas fruto da minha imaginação: são ou foram reais, palpáveis, humanos. Eu estive perto deles, toquei-lhes, vi o brilho dos seus olhos, ouvi o som do seu sorriso, escutei-lhes preocupações ou desejos ou nada disto e muito mais…
Às vezes, por força das circunstâncias, temos que sofrer uma dor calada por algum desses seres, uma mágoa para dentro que nos consome o espírito, contudo será sempre melhor que não saia para fora de nós para não magoarmos ninguém, mesmo que nos magoemos e que as entranhas doam uma dor que nos corta e rompe e rasga sem piedade. É o preço por algo que não devia ter sido feito, mas foi! É o preço por termos gostado de alguém! É tão fácil (des)gostar de um ser, basta que nos acariciem um pouco como se faz a um animal de estimação e sussurrem umas palavras bonitas e lá estamos nós gostando!
Costumo pensar como seria se fosse ao contrário: se eu partisse e eles ficassem. O que sentiriam? Como iriam reagir? Fariam o mesmo que eu? Sei agora que nunca terei respostas para as minhas dúvidas, porque não há quem as saiba e me elucide. Também eu um dia, que espero longínquo, deixarei questões que não terão resolução, provavelmente!
E assim vamos convivendo com cores, cheiros e músicas que trazem brisas que nos sopram ao ouvido e nos dizem nomes: os nomes deles e delas. E com a rapidez com que chegam partem, esfumam-se no ar como o vapor de um chá de fim de tarde numa sala quentinha com a lareira acesa e um mar de recordações que vagueiam na nossa mente e não nos largam. Será que nós queremos que elas desapareçam? Ou mantêm aqui aqueles que partiram como um comboio apressado que leva pessoas e malas e esperanças? Ninguém quer apanhar este comboio que leva a parte incerta porque de incertezas estamos nós fartos. Quando ele vem queremos que vá sem nos levar ou àqueles que amamos, pois deixa uma sensação de frio no estômago como se, de repente, abrissem uma porta e ficássemos desprotegidos como que ao relento, qual sem-abrigo que dorme num cartão. E todos gostamos de camas fofinhas em quartos abrigados em casas confortáveis em cidades calmas. 
Não gosto de funerais, apenas assisto aos que não posso evitar! Não gosto de cemitérios, só vou quando não posso faltar! Não gosto da morte, lido com ela quando não tenho outra alternativa! 
Sim, para mim partir também significa morrer e eu odeio essa ideia tal e qual se odeia um terrorista, uma doença ou um problema sem aparente resolução. 
Reagimos sempre de forma semelhante a situações parecidas: primeiro o choque; depois o choro; no fim a revolta e a questionação. 
Muitos partiram, muitos ficaram e eu fiquei com eles, embora não esquecendo quem foi, não largando completamente memórias que ficarão em mim como uma tatuagem no corpo de uma mulher ou de um homem que quer deixar marcado um momento. O que é afinal a vida se não momentos que vêm e vão a um ritmo alucinante? Pois é, a nossa existência tem essa particularidade: anda a toda a velocidade! 
Até um dia…

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Pensamentos de uma vida, por Ana Rita Ramos Copyright © 2010 Design by Ipietoon Blogger Template Graphic from Enakei