domingo, 10 de fevereiro de 2019

Boca de palhaço

à(s) domingo, fevereiro 10, 2019
Ele matava-as por prazer. Porque gostava de as ver sofrer. Porque gostava de as ver sofrer muito. Porque gostava de as ver sofrer como ele. Teve uma infância dolorosa no seio de uma família monoparental em que a mãe era alcoólica e violenta. Lembra-se que tinha um brinquedo apenas: um palhaço muito colorido, muito sujo, muito gasto. Adorava olhar para ele e imaginar-se um menino do circo a vaguear por entre artistas que lhe faziam festas na cabeça quando ele passava e lhe ensinavam truques de magia ou de contorcionismo!
Cresceu o rapaz com sonhos por realizar, carinho por receber, atenção que nunca lhe foi proporcionada. Habituou-se a uma vida de gritos, dor e mágoa e não imaginava que havia famílias diferentes da sua.
Assim, por vingança e maldade raptava mulheres que se assemelhassem à sua falecida mãe e assassinava-as, desenhando-lhes depois uma boca de palhaço.
A polícia apareceu numa tarde fatídica em que outra mulher foi morta e apanhou-o em flagrante. Está preso aquele homem que foi uma criança mal amada. Morreram os trapezistas e todos os acrobatas do seu circo imaginário. Morreu ele também alguns anos depois na sua cela depois de ter feito a si mesmo os contornos de uma boca de palhaço.

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Pensamentos de uma vida, por Ana Rita Ramos Copyright © 2010 Design by Ipietoon Blogger Template Graphic from Enakei