sexta-feira, 7 de dezembro de 2018

Da aldeia para a cidade, da cidade para a aldeia

à(s) sexta-feira, dezembro 07, 2018
Ela vivia sozinha numa aldeia isolada em relação à cidade mais próxima. Havia algum tempo que os entes queridos tinham partido. Na altura desejara o mesmo, mas a passagem dos anos ensinou-a que se consegue sobreviver com o desgosto. Custa horrores, porém não é impossível. Aos poucos volta o apetite e a necessidade de sentir o calor do sol na cara. Aos poucos volta um ligeiro sorriso que não é mais que um afastar de lábios para deixar ver um pouco os dentes. Não propriamente uma gargalhada que deixa entrever quase o estômago! 
Naquele dia tinha consulta no médico da clínica. Acordou bastante cedo, aprumou-se com as calças verdes quase novas, o lenço de flores e os sapatos humildes que gostava de calçar quando saía de casa. Escolheu a camisola castanha básica que condizia com o casaco e procurou os óculos graduados que ficavam sempre na mesinha ao pé da cama ou na sala junto à televisão. Teria que apanhar o autocarro e depois um táxi e fazer o inverso quando voltasse. Era um dia geralmente longo e cansativo! 
Chegou um pouco antes da hora e aguardou pacientemente. Assoou-se e guardou novamente o lenço na manga da camisola. Ouviu o seu nome e levantou-se com a agilidade dos velhos. Quando se despachou sentou-se na sala de espera na mesma cadeira onde tinha estado antes, abriu a mala, tirou um saquinho de plástico onde tinha colocado uma banana, comeu, limpou a boca com o lencinho e iniciou o percurso de regresso.

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Pensamentos de uma vida, por Ana Rita Ramos Copyright © 2010 Design by Ipietoon Blogger Template Graphic from Enakei